Pai dos cães e Cachorro Grande
Tudo
tem início em mais uma madrugada de metrópole, mesmo às altas horas ainda não é possível obter silêncio completo, há sempre
música proveniente de alguma festa que insiste em continuar noite afora ou alguma ocasional briga de casal, além, é claro,
do característico retorno ao lar do bêbado depois de um de seus "porres".
Dos acontecimentos antes citados aquele que encontra lugar neste conto é o último,
os ruídos de portas batendo e vidros quebrando, sempre acompanhados por gritos da esposa e dos filhos do sujeito emanavam
de uma pequena casa na periferia e como resposta a confusão uma sombra furtiva e ligeira sai de dentro da casa.
A sombra era ágil e pequena demais para ser o homem bêbado, na verdade era seu filho
que ao ver pela milésima vez seu pai espancar sua mãe e procurá-lo para que ele também tivesse sua cota de violência decidiu
não mais aceitar aquilo, talvez se fosse maior e mais velho ele enfrentasse seu pai, mas tudo o que uma criança era capaz
de fazer naquele momento era fugir.
Correra como nunca em sua vida, os vizinhos saíram para ver o que estava acontecendo
mas estavam todos ocupados demais voltando para dentro de suas casas ou fofocando sobre o casal que discutia para perceber
que o menino estava fugindo pelas sombras como um rato e o coro de ladros dos cachorros da vizinhança, excitados pelo barulho
e pela pequeno vulto que passava por seus territórios foi o hino de despedida para o garoto, que nunca mais voltaria para
aquele vale de sofrimento e dor.
Sua antiga casa realmente ficava em um vale, todas as ruas que saíam das três ou quatro
ruas que situavam-se dentro daquele "buraco" eram subidas íngremes e através de uma delas ele alcançou o mais longe que seus
pés de nove anos lhe haviam levado.
Continuou a corres , arfante como quem
foge do inferno, trombando e derrubando pessoas até que seu pequeno corpo encontrou um obstáculo que não podia vencer.
A farda cinzenta, as botinas ameaçadoras, a voz inquiridora, mas especialmente as
histórias ouvidas em casa onde a polícia era sempre a encarnação do mal fizeram a criança apavorar-se mais ainda com a presença
do policial que apenas perguntara ao garoto o motivo de tanto temor.
Temendo à tudo e à todos o pequeno buscou abrigo em um recanto escuro e isolado da
cidade, um daqueles becos que existem entre as torres de metal que erguem-se como árvores na "floresta urbana" e ali, com
a escuridão e o silêncio de uma aparente solidão o garoto conseguiu acalmar-se e percebeu o tamanho de seus problemas: estava
só, faminto e sem lugar para dormir em algum lugar onde nunca esteve e para piorar ele não estava só em seu esconderijo.
Estavam espalhadas pelo chão com seus cobertores e olhares amarelados voltados para
ele, além daqueles que reuniam-se junto a uma fogueira de papelão, desfrutando da companhia de cães da mesma estirpe, sarnentos
e pulguentos, com dentes afiados e salientes.
Olhavam todos para o garoto com olhos famintos e por um instante o menino pensou que
a necessidade havia roubado a sanidade deles, transformando-os em assassinos canibais, imaginou homens e cães lutando como
iguais pelas parte mais nobres de sua destroçada e diminuta carcaça, beberiam seu sangue e roeriam seus ossos.
Tudo isso, felizmente, não ocorreu de verdade e tudo o que aqueles homens fizeram
foi convidá-lo para que sentasse com eles e contasse sua história, de onde vinha e a razão de fugir de casa.
O garoto não confiava naqueles homens e a aparência deles não ajudava nem um pouco,
estava ele, entretanto, tão faminto que não conseguiu resistir ao cheiro de algo assando na fogueira e aproximou-se para comer.
Um
daqueles estranhos dividiu sua ave com a criança e o garoto comeu sem cerimônia, roendo até os ossos e depois agradeceu tamanha
bondade :
- Muito obrigado por dividir seu frango comigo, senhor. Disse o garoto, ainda lambendo
os dedos.
O coro de risos daqueles homens frente ao agradecimento do garoto era
aparentemente sem sentido, mas o homem que havia dado-lhe o que comer explicou o que era tão engraçado:
- Isto que você acabou de comer não era frango e sim um pombo de rua , garoto. Os
risos ainda estavam no ar quando o garoto perguntou perplexo:
- Vocês comem pombos ? Coitados deles!
- Você preferiria que comêssemos as crianças que se saem sozinhas de casa, como o
bicho-papão? Disse um outro mendigo do outro lado da fogueira, lançando um olhar de caçador ao menino que fez seu sangue gelar nas veias.
Ao perceber o terror nos olhos do pequeno os homens gargalharam de novo, como um bando
de fantasmas na noite.
Conversando
com os homens ele descobriu diversas informações, aqueles eram um grupo chamado de garotos perdidos, moradores de rua que
decidiram não ser mais carniceiros no meio ambiente urbano e viver através de um próprio código de leis.
- Se vocês são os garotos perdidos, onde está Peter Pan? Disse o menino ao lembrar
da história dos garotos que não queriam crescer.
Neste instante o clima festivo e descontraído desfez-se o os homens contraíram um
olhar sério e compenetrado , apavorando o pequeno estranho novamente, a comida e a conversa fizeram-lhe esquecer por um instante
que não conhecia aquelas pessoas e sua pergunta idiota havia deixado-os nervosos.
- Estamos perdidos até para a Terra do Nunca, menino, abrimos mão de tudo pela liberdade,
inclusive das ilusões. Explicara o mais velho deles.
Outra curiosidade sobre aqueles homens era que eles não tratavam-se por nomes, haviam
renunciado à eles em troca de controle total de suas vidas, entre eles não havia liderança ou subordinação, apenas confiança
e a noção de interdependência que une os lobos.
Neste
instante o garoto perguntou:
- Estes cães são se vocês ?
- Não, os cachorros de rua pertencem apenas à eles mesmos. Deixamos a sociedade por
não acreditar em proteção ou responsabilidade em relação às pessoas, por que daríamos isso à eles?
O pequeno ouvia maravilhado, apesar de não entender exatamente o que tudo aquilo significava,
para ele aquele era apenas um bom lugar para ficar e nunca mais precisar voltar para casa.
O garoto ainda estava interessado nos cães, por algum motivo não conseguia acreditar
que os cães eram capazes de tornar-se tão aptos à sobrevivência no ambiente urbano sem retornar à selvagem bestialidade dos
cães realmente selvagens, como os lobos e os chacais.
Conversara com o velho que tanto o ajudara e percebia que ele tentava desviar do assunto
dos cães e, aparentemente, os cães também perceberam que não eram benquistos e afastaram-se do beco, não esparsamente como
se tivessem terminado seus assuntos ali e partissem, mas todos ao mesmo tempo e dirigindo-se para a mesma direção, como se
tivessem sido chamados.
Aquela movimentação inesperada fez com que a curiosidade do garoto aumentasse mais
ainda e como ninguém parecia disposto a esclarecer suas dúvidas ele decidiu seguir os cães e ver com seus próprios olhos quem
ou o quê teria chamado a atenção de todos os cães simultaneamente.
Ao perceber a intenção do garoto o velho chamou-lhe e disse:
- Cuidado, criança, nem todos aqueles que se escondem por estes becos são gentis como
nós. Completou dando-lhe um punhal. – Use este punhal em caso de necessidade e lembre-se que em casa de cão não menciona-se
o gato.
Sem tomar conhecimento do significado exato dos dizeres do velho o garoto agradeceu
e apressou o passo ou perderia o rastro dos cães naquele escuro e estranho pedaço da cidade.
Para a sorte do garoto um dos cães ficou para trás por estar com a pata quebrada e
seguindo este cão o garoto chegou até uma cerca no estilo alambrado, alta e imponente como as muralhas de um castelo e aparentemente
intransponível.
O pequeno garoto esperou escondido e observou como o cão atravessaria aquilo e então
percebeu que o animal esgueirava-se por uma falha da cerca perto do chão, fazendo apenas um pouco de barulho com sua passagem
e deixando a cerca como ela estava no início, aparentemente intransponível.
Esperou alguns instantes e tentou imitar o que havia visto o cão fazer, mas era muito
maior do que ele e por isso precisou puxar os arames daquela cerca um pouco mais, além de ferir suas costas tentando forçar
sua passagem, mas depois de tanto esforço a cerca finalmente cedeu e permitiu-lhe a passagem, retornando ao seu estágio inicial
após isto, como se ninguém tivesse passado por ali.
Ele andou pela única trilha disponível após o cercado , sempre mantendo uma distância
considerada segura do cão que o havia guiado até ali, após uma curva o caminho terminara abruptamente frente a uma porta dupla,
similar àquelas portas dos fundos encontradas em restaurantes e estabelecimentos similares e por esta porta o cachorro entrou.
Por um instante o garoto hesitou antes de seguir o cão e desta vez o motivo da hesitação
não fora o medo e sim um estranho ruído vindo de dentro do galpão, algo parecido com música, apesar de ser inconstante demais
para o ser e haviam também ganidos, uivos ou algo similar acompanhando o som principal e o menino, sem o medo que acovardaria
alguém mais velho, entrou no galpão.
Talvez fosse melhor não ter entrado.
Centenas de cães estavam deitados por todo o lugar, a grande maioria vira latas mas
era possível ver alguns canioos de raça também e no centro desta concentração inimaginável de animais, cuidando de filhotes
e de cães velhos demais havia um homem.
Pelo menos parecia um homem à princípio,
com o mesmo tipo de vestes andrajosas usadas pelos garotos perdidos, mas o capuz que cobria a face peluda e o andar arqueado
de quem está acostumado a usar quatro patas ao invés de duas pernas davam-lhe o ar de um lobisomem ou outro tipo de monstro.
Os caninos que estavam perto do limiar da porta, aparentemente montando guarda puseram-se
em posição ofensiva, rosnando de maneira ameaçadora, sendo seguidos aos poucos por todos os companheiros que dormiam pelos
cantos daqueles lugar, aquele coro de ameaças de ataque foi tão assustador para o pequeno aventureiro que ele simplesmente
não se mexeu, tamanho seu terror frente à morte certa.
O monstro ergue-se e os cães abriram-lhe caminho, o pânico foi ao auge e o garoto
sentiu os espasmos primais de preservação da vida, os músculos de todo o corpo retesados como cordas de violão e em um impulso
desesperado saltou com o punhal dado pelo garoto perdido nas mãos em direção ao monstro encapuzado que aproximava-se.
Ele nunca alcançaria o homem, os cães mais próximos jogaram-no ao chão e entre todos
aqueles focinhos e patas furiosas em cima de seu corpo que esperavam por algo
antes de aniquilar aquele pequeno e ousado intruso o garoto reconheceu um dos
cães de rua que vagava perto de sua casa, rosnando e pronto para destruí-lo como todos os outros, antes ele fora tão gentil
e eles até divertiam-se na rua, que lugar era aquele afinal, que os cães defendiam com tanto destemor ?
O início das respostas começou naquele mesmo instante quando a figura encapuzada levou
algo similar a um apito à boca e o ruído meio musical , meio bestial retornara, os cães responderam ao chamado de imediato
e retiraram seu peso de matilha de sobre o pobre garotinho, formando um círculo envolvendo o garoto e o mendigo.
Sua voz soou abafada e grossa, similar aos rosnados de seus amigos cães, ressaltando
a aparência de um lobisomem encapuzado:
- Sua sorte é que hoje estou de bom humor, menino, ou você teria virado o jantar dos
meus amigos. Disse o encapuzado afagando o cão mais próximo e sorrindo um riso alvo e barbado.
- Quem é você ? Disse o garoto, entre soluços e gaguejos.
- Quem te deu este punhal não te ensinou que os nomes não te importância aqui? Respondeu
o mendigo com o punhal em sua mão. – Entre os meus eu sou chamado de pai dos cães, por enquanto chame-me assim. E você,
quem é ?
- Sou apenas um garoto sem teto, não é verdade que os nomes não importam por aqui?
Disse o garoto retribuindo o sorriso com outro sorriso.
Você aprende rápido, garoto, muito bom. Disse o vulto, retirando o capuz e mostrando
sua face à criança.
Se aquela face de cabelos desgrenhados e olhar intimidante fosse apresentada ao garoto
antes daquele dia ele temeria e sairia das proximidades gritando, mas naquele dia, depois de ver todos aqueles moradores das
sombras e sentindo-se melhor naqueles momentos do que em qualquer outros de sua vida ele entendeu que aquele era seu lugar.
O pai dos cães foi para ele um pai também e ele teve todos os cães de rua como irmãos,
aprendeu com eles sobre os caminhos dos becos, que eram, são e serão protegidos pelos cães até que a cidade desmorone sob
seus próprios pilares, além de conhecer outros como seu "pai", espíritos que
a tudo protegem e que são parte integrante do equilíbrio urbano.
O garoto cresceu e foi chamado de Cachorro Grande, começou a ajudar Pai dos cães com
suas obrigações além de ajudar pessoas perdidas a encontrar o caminho de volta, enquanto aqueles que não quiserem voltar são
levados aos garotos perdidos e integrados à comunidade deles, que também é protegida pelo Pai dos cães.